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Pontos de vista

Pontos de vista

20
Set25

"O Partido Trabalhista britânico está abrindo caminho ao fascismo" por Jeremy Corbyn

José da Praia

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Fonte: “Sin Permiso”

Tradução de Rosa Pinho

Jeremy Corbyn foi líder do Partido Trabalhista britânico entre 2015 e 2019. É presentemente deputado na Câmara dos Comuns pelo distrito londrino de Islington Norte e membro do grupo de parlamentares da Aliança Independente e um dos principais promotores do novo partido da esquerda britânica. NDT.

Visitei Calais, em França, em múltiplas ocasiões. E em cada uma dessas vezes aprendi algo novo sobre o significado da resiliência humana. Depois de fugirem dos horrores da guerra, dos desastres ambientais e da indigência, os refugiados de Calais passaram um inferno em busca de um lugar seguro. Ao chegarem a Calais prosseguem a sua busca. Os meninos pedem água que está contaminada por fezes. As ratazanas passam nas esburacadas tendas de campanha da família. As mães choram implorando um futuro para os filhos. As autoridades francesas procedem diariamente a desalojamentos; confiscam ou destroem as tendas de campanha, as mantas, os documentos de identidade, os telemóveis, a roupa e os medicamentos.

Os que chegam às costas britânicas, atravessando a Mancha, não são «refugiados do mar». São seres humanos que pedem legalmente asilo. Tal como escreve Warsan Shire no seu poema Home, “ninguém põe seus filhos num barco a menos que a água seja mais segura que a terra”. Imaginemos o que é viver nas condições que descrevi. Imaginemos então o que é arriscar a vida para atravessar o Canal da Mancha. E imaginemos o que é terminar numa pensão, olhar pela janela e ver uma multidão de pessoas a gritar “vai para a tua terra”.

No último mês fomos testemunha de uma série de protestos frente aos hotéis que estão a ser utilizados para alojar os solicitantes de asilo. Entre os manifestantes havia cartazes que diziam “deportações em massa já”, uma reclamação a que agora se juntou Nigel Farage, do partido Reform UK. Muitos de nós observámos nos Estados Unidos as horríveis imagens onde se vê como os polícias arrastam as pessoas pelas ruas. Francamente é aterrador pensar que essa crueldade possa chegar em breve ao Reino Unido.

Como chegámos a esta situação? Respondo: porque um governo trabalhista passou o último ano incitando ao ódio, à divisão e ao medo. Foi absolutamente repugnante ver o Partido Trabalhista publicar vídeos de migrantes detidos e deportados, numa campanha de propaganda de que Donald Trump se sentiria orgulhoso.   

Foi igualmente repugnante ver agentes da polícia terem de escoltar um voluntário dador de ajuda a imigrantes em Deliveroo, rodeado por manifestantes contrários ao asilo, somente umas semanas depois de o Governo ter ameaçado a fornecedores «ilegais» de comida para a sua possível deportação. Em vez de demonizar os humanitários doadores de comida, que podem ser ou não ser solicitantes de asilo, por que não outorgar aos requerentes de asilo o direito a trabalhar para que possam manter-se e contribuírem para a sociedade? As análises mostram que assim se poderia alcançar 1.300 milhões de libras por ano e acrescentar 1.600 milhões de libras [cerca de 1.840 milhões de euros] ao PIB anual do Reino Unido.

Culpar pessoas vulneráveis tem sido sempre uma estratégia deliberada do governo para distrair a atenção dos seus próprios fracassos internos. Hoje podem ser os imigrantes que pedem de asilo. Amanhã poderão ser as pessoas com incapacidades. Depois de amanhã, as pessoas trans. Seja qual for a minoria, estamos sendo testemunhas da demonização de pessoas vulneráveis, com grave prejuízo para todos nós.

Os grandes causadores das divisões sociais querem que acreditemos que os problemas da nossa sociedade são causados pelas minorias. Mas não é assim. A causa é um sistema económico manipulado que protege os interesses dos super-ricos. Por isso vivem na pobreza 4,5 milhões de crianças. Por isso continuam a aumentar as faturas da água. Por isso pagam os inquilinos de habitações do setor privado mais de metade do seu salário líquido para terem um teto onde se abrigarem.

Os estrategas trabalhistas nos dirão que não têm outro remédio senão apoiar-se no sentimento anti-imigrante para travar o crescimento do partido Reform UK. Mas isso funciona? O Partido trabalhista podia ter defendido um sistema de imigração humano que tratasse os refugiados com dignidade e respeito. Mas pelo contrário têm avivado as chamas do racismo e promovido a extrema-direita em todo o país. Quando demonizas os imigrantes, a extrema-direita escuta-te. Quando se publicam vídeos da detenção e deportação de imigrantes, a extrema-direita vê-os. Quando se fala numa «ilha de estrangeiros», a extrema-direita mobiliza-se.

Mas não são sinais de um partido que adota contrariado uma estratégia eleitoral. São sinais de um partido que adere ativamente ao crescimento do populismo da extrema-direita, sem que importe o custo eleitoral. São sinais de um país que desliza pela rampa do fascismo. Esta palavra não deve utilizar-se com ligeireza. Muitos atos são suficientemente aterradores por si mesmos sem necessidade de etiquetá-los assim. Mas cuidado, o fascismo não chega da noite para o dia com uniforme. Ele chega com políticos vestidos com roupa normal, lei a lei.

De facto a demonização das minorias faz parte de um ataque mais amplo e em grande escala contra os direitos humanos. Quando o Governo proibiu, por exemplo, a ONG Palestine Action, não atacou, aqui e agora, apenas o direito de oposição ao genocídio. Abriu um perigoso precedente, incentivando a que um qualquer futuro novo governo considere que também pode arrebatar o direito a protestar num abrir e fechar de olhos. O Partido Trabalhista não está apenas a pactuar com o partido Reform UK. Está estendendo-lhe a passadeira vermelha aprovando leis perigosas que serão aproveitadas por aqueles que buscam destruir os nossos direitos.

Encontramo-nos numa encruzilhada crucial. Precisamos de uma alternativa. Por isso lançámos o yourparty.uk, e por isso já se inscreveram mais de 700.000 pessoas. Vamos fazer as coisas de outra maneira. Não vamos converter os refugiados em bode expiatório dos males da sociedade. Pelo contrário, concentraremos a nossa atenção na causa real: uma sociedade grotescamente desigual que concentra a riqueza nas mãos de uns poucos.

Não defenderemos apenas os direitos humanos dos refugiados. Defenderemos os direitos humanos de todos. Incluindo as pessoas com incapacidades e o seu direito a viverem com dignidade. Incluindo as crianças em situação de pobreza a quem se nega o direito à alimentação e à roupa. Incluindo as pessoas trans, que enfrentam uma terrível descriminação, o ódio e abusos somente por viverem as suas vidas; as pessoas trans são seres humanos que merecem viver com segurança, dignidade e liberdade. Devemos estar unidos contra a opressão e os preconceitos em todas as suas formas, e é isso que faremos. 

Olhemos em nosso redor e encontraremos provas de que é possível um mundo mais amável. Pelo que vemos na maioria dos nossos meios de comunicação, poderia pensar-se que existe um consenso segundo o qual os refugiados não são bem-vindos. Nada está mais longe da realidade. «Creio que devemos cuidar das pessoas que passam por apuros ou que necessitam de ajuda». Isso é o que declarou uma jovem em resposta aos manifestantes da sua comunidade em Epping. Falo com pessoas como ela todos os dias, pessoas comuns e correntes que apoiam, se fazem amigos e estendem a mão como seres humanos aos solicitantes de asilo.

O primeiro-ministro fala de uma ilha de estrangeiros. Ignora a bondade dos desconhecidos. E é isso que me oferece a esperança de que, juntos, possamos construir um mundo mais amável para todos.

Jeremy Corbyn

Fonte: Tribune, Labour Is Paving the Path to Fascism by Jeremy Corbyn, 01.09.2025, <https://tribunemag.co.uk/2025/09/labour-is-paving-the-path-to-fascism>

Tradução para español: Lucas Antón

“Sin Permiso”, 06/09/2025

<https://www.sinpermiso.info/textos/el-partido-laborista-le-esta-abriendo-camino-al-fascismo>

23
Jul25

Gaza: “Francesca Albanese sancionada porque no mundo livre dizer a verdade é verdadeiro crime”, por Alberto Garcia Watson

José da Praia

Tradução de Rosa Pinho

A jurista italiana Francesca Albanese, relatora da ONU para os Direitos Humanos na Palestina, mandatada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupados, foi visada com sanções unilaterais pelos Estados Unidos.

As sanções motivaram protestos designadamente do secretário-geral da ONU, da Amnistia Internacional, do Human Rights Watch, vários abaixo-assinados e aqui do analista especializado em assuntos do Médio Oriente Alberto García Watson. NdT

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“Todos os olhos devem continuar voltados para Gaza, onde crianças morrem de fome nos braços das mães, enquanto pais e irmãos são despedaçados por bombas quando procuram comida.” – Francesca Albanese

“Os poderosos a punirem quem fala pelos que não têm voz não é sinal de força, mas de culpa.” – Francesca Albanese

Bem-vindo à nova era do direito internacional à escolha, onde os verdugos são homenageados e quem denuncia massacres é sancionado. Esta semana, o governo dos Estados Unidos – líder planetário da liberdade, dos direitos humanos e da diplomacia com drones – decidiu impor sanções a Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os Direitos Humanos na Palestina, por cometer o mais imperdoável dos crimes: atrever-se a dizer que o genocídio é genocídio.

Que delito cometeu? Denunciar com provas, números, e algo tão escandaloso como o direito internacional, que o que ocorre em Gaza, desde Outubro de 2023 não é uma “operação cirúrgica” nem uma “resposta desproporcionada”, mas um extermínio sistemático de civis. Mas no manual ocidental de decência política, denunciar um crime de guerra é o mesmo que apoiar os criminosos. Assim Albanese foi acusada, na falta de mais, de “apoiar o Hamas” e de “antissemitismo”, porque, é claro, neste teatro global, todo aquele que condene a limpeza étnica efetuada pel’“o povo eleito” (não se sabe bem por quem), é automaticamente suspeito de heresia ideológica.

Albanese: Relatora ou terrorista encoberta, segundo a CNN

O mais patético não é apenas que uma relatora da ONU seja sancionada por fazer o seu trabalho, mas que tenha também de defender-se de acusações tão sofisticadas como “pensar diferente” ou “mostrar solidariedade com os mortos errados”. Na nova ordem moral, não importa quantas crianças palestinas morrem debaixo dos escombros: o verdadeiro escândalo é dizê-lo em voz alta.

E enquanto as máquinas mediáticas qualificam Albanese de “controversa”, Donald Trump – sim, o mesmo que intentou um golpe de Estado no seu país – levanta sanções a Abu Mohammad al-Jolani, ex-jiadista com currículo na Al-Quaeda e novo rosto da “estabilidade” na Síria. Quer dizer: uma relatora de direitos humanos que condena um genocídio é sancionada, mas um criminoso de guerra com barba porfiada e traje ocidental é recompensado.

Terrorismo: mau? Somente se não serve a narrativa

Hay’at Tahrir al-Sham, braço reciclado da Al-Qaeda, já não é um grupo terrorista, mas um “ator pragmático”, segundo Londres. Mas entretanto Albanese é uma ameaça para a paz mundial porque insiste em chamar extermínio ao que outros chamam “defesa legítima”. Porque neste universo invertido, matar 40.000 palestinos é um dever sagrado, mas chorá-los em público é incitação ao ódio.

E assim chegamos ao absurdo total: denunciar crimes de guerra cometidos por aliados é antissemitismo. Defender o direito à vida de um povo massacrado é propaganda do Hamas. E negar-se a aplaudir um genocídio é terrorismo moral.

Gaza, Líbano, Iémen, Irão: sob do fogo justificado

Enquanto a voz de Albanese incomoda, Israel segue arrasando Gaza, bombardeia o Líbano, ataca a Síria, castiga o Iémen e ameaça irascível o Irão, tudo sob o olhar amável dos que repartem prémios Nobel da Paz e armas ao mesmo tempo. Não há hipocrisia. Há coerência imperial.

A defesa da legalidade internacional é válida apenas quando serve a hegemonia ocidental. Caso contrário é terrorismo encoberto. Os princípios universais têm fronteiras, cláusulas e cláusulas adicionais. E Albanese saltou todas ao pôr sobre a mesa uma pergunta incómoda: quantos mortos são precisos para chamar a isto pelo seu nome?

Conclusão: a heresia de ter consciência

A sanção a Francesca Albanese não é um erro. É uma mensagem. Não se persegue a Albanese por mentir, mas por não fazê-lo. Neste mundo, o verdadeiro crime é ter consciência em voz alta. E se além disso essa consciência ousa criticar o Estado de Israel, então prepara-te para que te chamem antissemita, ainda que cites o artigo 2 do Estatuto de Roma com a mesma precisão com que eles acionam o botão do drone.

Porque é assim: nesta tragédia global, os genocídios justificam-se, a resistência criminaliza-se, e a compaixão pelas vítimas não autorizadas converte-se em motivo de sanção. Albanese passará à história como a mulher que foi castigada não pelo que fez, mas pelo que não calou.

E isso, para o império é o mais imperdoável.

Alberto Garcia Watson

Fonte: “Rebelión”, 16/07/2025, <https://rebelion.org/francesca-albanese-sancionada-porque-en-el-mundo-libre-decir-la-verdad-es-el-verdadero-crimen/>

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18
Jul25

Desigualdades no mundo

José da Praia

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Publicámos um artigo neste blogue em 07/04/2025 acerca das desigualdades em Portugal, comparadas com as de outros países, e suas correlações com outros parâmetros.

Relativamente às desigualdades a nível mundial, o banco suíço UBS, sucedendo ao banco Credit Suisse, divulgou um estudo sobre a matéria relativo ao ano de 2024.

Os dados principais desse estudo constam de artigo de 08/07/2025 do economista britânico Michael Roberts.

A versão original em inglês desse artigo está disponível em https://thenextrecession.wordpress.com/2025/07/08/just-1-6-of-all-worlds-adults-own-48-1-of-all-the-worlds-personal-wealth/

e a sua tradução em espanhol em https://www.sinpermiso.info/textos/solo-el-16-de-todos-los-adultos-poseen-el-481-de-toda-la-riqueza-personal-del-mundo.

Os economistas da UBS apresentaram nesse estudo um gráfico em pirâmide da riqueza global.

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Nele se mostra que 60 milhões de adultos, equivalentes a apenas 1,6 % de todos os adultos do mundo, têm uma riqueza pessoal líquida de 226 biliões de dólares ($226* 1012) que correspondem a 48,1 % de toda a riqueza pessoal do mundo!

E 1% (sim apenas um por cento) da população mundial, tem cerca de 42 % de toda a riqueza pessoal mundial.

Juntando no gráfico em pirâmide da UBS, o escalão médio ao escalão mais baixo dos titulares de riqueza, resulta, como salienta Michael Roberts, que 3,1 mil milhões de adultos (ou seja, 82 % de todos os adultos) têm uma riqueza pessoal de 61 biliões de dólares, isto é apenas 12,7 % da riqueza global total.

Segundo o estudo da UBS a desigualdade máxima da riqueza pessoal a nível mundial tem piorado, ainda que ligeiramente, desde princípios do século XXI. No ano de 2023, a África do Sul seguia no desprestigiante cimo da lista mundial de desigualdades da riqueza pessoal, medida pelo coeficiente de Gini para a desigualdade, seguida «como sempre» pelo Brasil. E essa proporção Gini piorou de forma significativa durante a Grande Depressão desde 2008.

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Michael Roberts observa no quadro da UBS que, entre as economias capitalistas avançadas, a Suécia tem a distribuição mais desigual de riqueza pessoal, «algo que pode surpreender aqueles que elogiam a Escandinávia social-democrata». Os Estados Unidos da América são tão desiguais como a Suécia.

A Bélgica ocupa o melhor lugar do quadro, com o mais baixo nível de desigualdades.

Perante o panorama das desigualdades no mundo não se pode dizer que a Humanidade esteja a ser bem governada, antes pelo contrário. Porquê? Questão de sistema? Questão de políticas? Algo precisa de mudar.

Que fazer?

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Fonte: Oxfam


07
Abr25

Desigualdades e ouros males

José da Praia

"Para se saber por que razão um país funciona melhor ou pior do que outro, a primeira coisa a fazer é analisar o nível de desigualdade."

Richard Wilkinson e Kate Pickett

Analisemos então o nível de desigualdade em Portugal e os seus efeitos.

A saúde. A esperança de vida. O sucesso escolar. A maternidade na adolescência. A violência. A população encarcerada. A segurança. A qualidade de vida. Qual a relação que têm com as desigualdades sociais?

Dois médicos ingleses Richard Wilkinson, da Universidade de Nottingham, e Kate Pickett recolheram dados estatísticos dos países economicamente mais desenvolvidos, ditos os mais ricos, pertencentes à OCDE, incluindo Portugal. Excluíram países com população abaixo dos três milhões de habitantes e os paraísos fiscais. Usaram programas de computador para traçar gráficos que relacionam indicadores numéricos dos problemas sociais com os índices de desigualdade social dos 23 países considerados. Fizeram o mesmo em relação a cinquenta estados que constituem os Estados Unidos da América. Os resultados e o que eles significam estão reunidos no livro “O Espírito da Igualdade”, publicado em 2010 pela Editorial Presença.

Vejamos agora, passada mais de uma década, como está Portugal quanto a desigualdades.

As desigualdades sociais são em geral medidas pelo índice de Gini e pelo índice S80/S20.

Em Portugal, as desigualdades medidas pelo índice de Gini baixaram de 37,8 no ano 2003 para 31,9 dez anos depois, em 2023. Uma melhoria assinalável.

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Medidas pelo índice S80/S20, as desigualdades em Portugal baixaram de 7,0 em 2003 para 5,2 em 2023, confirmando a melhoria.

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São boas notícias, pois, com ambos os índices.

E, no entanto…

Comparando com outros países com os quais nos costumamos comparar o que observamos?

Observando os índices de Gini relativos às desigualdades nos países europeus da UE-14 constamos que em 2023 a Bélgica e os Países Baixos apresentam respetivamente índices de 24,2 e 26,5 enquanto Portugal com um índice de Gini de 33,7 está no pior lugar.

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E se usarmos o índice S20/S20 observamos que Portugal é também lanterna vermelha em 2023 entre os países da UE-14 com um índice de 5,6 enquanto a Finlândia está bem melhor com índice de 3,78 e a Bélgica de 3,38.

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Seguindo os exemplos de Richard Wilkinson e Kate Pickett relacionemos, para os mesmos países, as desigualdades com índices de problemas sociais, por exemplo com o número de presos – número de presos por 100 mil habitantes – no ano de 2022, o último ano em que dispomos de dados.

Como fica Portugal na fotografia? Enquanto nos Países Baixos o número de presos por 100 mil habitantes foi de 63 no ano de 2022 e na Finlândia foi de 51, em Portugal foi de 119 presos, mais 89% do que os Países Baixos e mais dobro do que a Finlândia. A maior desigualdade em Portugal correspondeu mais gente encarcerada.

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Vejamos outro exemplo. Relacionemos desta vez as desigualdades com o desenvolvimento, ou seja, o índice Gini com o índice de desenvolvimento humano IDHAD da ONU, relativos ao ano 2022.

Portugal estava mal colocado quanto a desigualdades no ano de 2022 e constatamos que quanto a desenvolvimento humano é o pior entre os países com os quais se comparou. A grande desigualdade em Portugal correspondeu o pior nível de desenvolvimento.

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Que conclusões tirar? O que há a fazer?

Nota: Usaram-se como fontes de dados para a elaboração dos gráficos a Pordata, a Eurostat e a Wikipédia. Quaisquer erros na utilização dos dados serão da responsabilidade do autor.

 

 

 

25
Mar25

Cientistas unem-se contra o rearmamento da União Europeia

por Carlo Rovelli [*] e Flavio Del Santo [**]

José da Praia

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Cientistas unem-se para expressar a sua oposição a recente proposta de rearme da União Europeia. Publicaram um «Manifesto de cientistas contra o rearme» e fazem um apelo a cientistas, engenheiros, profissionais de medicina, matemáticos, pessoal académico e comunidade científica em geral para que apoiem a sua posição.

Como cientistas – implicados muitos de nós em campos onde se desenvolve tecnologia militar –, como intelectuais, como cidadãos conscientes dos riscos globais atuais, entendemos que é hoje obrigação moral e cívica de qualquer pessoa de boa vontade de levantar a sua voz contra o chamamento a uma militarização europeia, e instar ao diálogo, à tolerância e à diplomacia. Uma brusca militarização não preserva a paz; conduz à guerra.

Os nossos dirigentes políticos dizem estar dispostos a lutar para defender alegados valores ocidentais que consideram estar em perigo; mas estarão eles dispostos a defender o valor universal da vida humana? Os conflitos no mundo estão a aumentar. Segundo as Nações Unidas (2023), uma quarta parte da humanidade vive em zonas afetadas por conflitos armados. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, subsidiada pelos países da NATO com a justificação de «defender os princípios», está deixando atrás de si um saldo estimado de um milhão de vítimas. O risco de genocídio dos palestinos por parte do exército israelita respaldado pelo Ocidente global foi reconhecido pelo Tribunal Internacional de Justiça. Em África estão a desenvolver-se guerras brutais, como no Sudão, ou na República Democrática do Congo, alimentadas por interesses que cobiçam os recursos minerais de África. O Relógio do Juízo Final [Doomsday Clock] do Bulletin of the Atomic Scientists, que quantifica os riscos de una catástrofe nuclear mundial, nunca registou um risco tão alto como o de hoje.

Amedrontada pelo ataque russo à Ucrânia e pelo reposicionamento recente dos Estados Unidos, a Europa sente-se marginalizada e teme que corram perigo a sua paz e a sua prosperidade. Os políticos reagem de forma míope com um apelo a mobilizar, à escala continental, uma colossal quantidade de recursos para produzir mais ferramentas de morte e destruição. Em 4 de março de 2025, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deu a conhecer o «Plano Rearmar Europa», declarando que «Europa está preparada e é capaz de atuar com a rapidez e a ambição necessárias. (…) Estamos numa era de rearmamento. E a Europa está preparada para aumentar massivamente o seu gasto em defesa». A indústria militar, que dispõe de enormes recursos e uma influência poderosa sobre os políticos e os meios de comunicação, lança lenha para a fogueira com uma narrativa abertamente beligerante. O «medo à Rússia» agita-se como um fantasma, ignorando convenientemente que a Rússia tem um PIB inferior ao de Itália. Os políticos afirmam, de forma totalmente injustificada, que a Rússia tem objetivos expansionistas no que toca a Europa, que presumem uma ameaça para Berlin, Paris e Varsóvia, quando acaba de demonstrar que nem sequer é capaz de tomar um seu antigo satélite, Kiev. A propaganda de guerra alimenta-se instigando sempre um medo exagerado. Com diplomacia, a Europa pode voltar à sua coexistência pacífica e à colaboração com a Rússia que o maldito assunto ucraniano transtornou.

A ideia de que a paz depende de dominar os do outro lado só conduz à escalada, e a escalada conduz à guerra. A Guerra Fria não se converteu em guerra «quente» e os políticos judiciosos de ambos lados foram capazes de superar as suas fortes divergências ideológicas e a suas respetivas «questões de princípio» e de conciliar una drástica redução equilibrada dos seus respetivos armamentos nucleares. Os tratados nucleares START entre Estados Unidos e a União Soviética conduziram à destruição de 80% do arsenal nuclear do planeta. Cientistas e intelectuais de ambos lados desempenharam um reconhecido papel na hora de incitar os políticos a una desescalada racional. Em 1955, Bertrand Russell, Premio Nobel de Literatura e um dos filósofos e matemáticos mais destacados do século XX, e Albert Einstein, Premio Nobel de Física, promoveram um manifesto influente – que ficou conhecido como o Manifesto Russel-Einstein –, e a Conferência de Pugwash (Canadá), inspirada no mesmo, reuniu cientistas de ambos os lados, que pressionaram em favor de una desescalada. Quando em 1959 se pediu a Russell que deixasse uma mensagem para a posteridade, respondeu: «Neste mundo, cada vez mais interconectado, temos que aprender a tolerar-nos uns aos outros, temos de aprender a suportar que algumas pessoas digam coisas que não gostamos. Só assim poderemos viver juntos. Mas se queremos viver juntos, e não morrer juntos, devemos aprender um tipo de caridade e um tipo de tolerância, que resulta absolutamente vital para a continuação da vida humana neste planeta». Devemos aferrar-nos a esta sábia herança intelectual.

Os grandes conflitos foram sempre precedidos de investimentos militares massivos. Desde 2009, o gasto militar mundial tem alcançado cada ano níveis recorde sem precedentes, e em 2024 o gasto alcançará um máximo histórico de 2443.000 milhões de dólares. O «Plan Rearm Europe» compromete a Europa a investir 800.000 milhões de euros em gastos militares. Tanto o atual Presidente dos Estados Unidos como o da Rússia declararam recentemente que estão dispostos a iniciar conversações para normalizar relações e obter uma redução militar equilibrada. O presidente de China tem feito repetidos chamamentos à desescalada e a passar-se de uma mentalidade de enfrentamento a uma mentalidade de colaboração em que todos saiam a ganhar. Esta é a direção a seguir. E no entanto a Europa prepara-se agora para a guerra, com uma nova planificação de gastos militares nunca vista desde a Segunda Guerra Mundial. Está a Europa disposta a fazer soar as espadas porque se sente excluída?

A humanidade enfrenta tremendos desafios globais: a mudança climática, a fome no Sul global, a maior desigualdade económica da história, os riscos crescentes de pandemias, a guerra nuclear. A última coisa que precisamos hoje é que o Velho Continente passe de ser um exemplo de estabilidade e paz a converter-se num novo senhor da guerra.

Si vis pacem para pacem: Se queres a paz, constrói a paz, não a guerra.

---x---

[*] Carlo Rovelli – um dos mais importantes físicos teóricos europeus, especialista em gravidade quântica, é também um conhecido escritor e divulgador científico, frequente colaborador de diários italianos como Il Sole 24 Ore e La Repubblica.

[**] Flavio Del Santo – físico quântico, é professor das universidades de Viena e Genebra.

Fonte: Sbilanciamoci, 16 de março de 2025

“Sin Permiso”, 23/03/2025

<https://www.sinpermiso.info/textos/los-cientificos-se-unen-en-contra-del-rearme-de-la-ue>

Tradução para português por Rosa Pinho

09
Jan25

Eça de Queiroz no Panteão Nacional

"Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria"

José da Praia

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Eça de Queirós em 1893 | Wikipédia

Relacionado com a transferência, ontem, para o Panteão Nacional dos restos mortais de Eça de Queiroz (também escrito Eça de Queirós) (1845-1900), lembra-se a sua relação com Aveiro onde viveu em Verdemilho, Aradas, na casa do seu avô, o conselheiro Joaquim José de Queirós (1774-1850) – um dos heróis do movimento liberal iniciado em Aveiro em 16 de Maio de 1828.

Recorda-se que desvanecidas as dúvidas quanto ao rumo absolutista imposto ao país, após a dissolução das Cortes pelo regente D. Miguel a 13 de Março de 1828, “constitui-se, logo, na cidade de Aveiro, um foco de uma luz liberal”. Aqui foi planeado, e iniciado na manhã de 16 de Maio de 1828, “no meio de grande entusiasmo”, o “movimento em prol da liberdade”, extensivo ao Porto, para onde se dirigiu. Face ao poder das forças absolutistas e à retirada das forças liberais para a Galiza – com Joaquim José de Queiroz, José Estevão, Mendes Leite, etc. – e depois para a Inglaterra, ilha Terceira, até ao desembarque a Sul do Mindelo em 8-7-1832, ocorreram “as perseguições, os homísios, as prisões e as forcas, a que se seguira mais tarde as batalhas e as vitórias, e afinal o triunfo da liberdade” (1).

O avô de Eça, Joaquim José de Queirós, estando fora do país, foi condenado à morte (à revelia) pelos miguelistas, em 25 de Novembro de 1829, enquanto a sua casa era assaltada e a sua mulher presa (2).

Outros participantes de Aveiro no movimento libertador de 16 de Maio tiveram pior sorte. Foram decepados: Francisco Manuel Gravito de Veiga e Lima, Manuel Luiz Nogueira, Clemente de Melo Soares de Freitas, Francisco Silvério de Carvalho Magalhães Serrão, Clemente de Morais Sarmento, João Henriques Ferreira. “Cidade mártir de sangue e lágrimas” – chamou a Aveiro, Jaime Cortesão. “Aveiro, cidade percursora!” (3). Marques Gomes deu-lhe o cognome de Berço da Liberdade.

A ligação de Eça de Queiroz a Aveiro, onde aliás desejou ser sepultado – por isso, em 1932 “uma comissão de notáveis de Aveiro preparava-se para promover a trasladação dos restos mortais de Eça [de Lisboa] para o cemitério do Outeirinho, perto de Verdemilho” (4) –, está bem expressa na sua declaração:

"Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria" (5).

Notas:

(1) Marques Gomes, “Aveiro / Berço da Liberdade / A Revolução de 16 de Maio de 1828”, Aveiro, 1928.

(2) Maria Filomena Mónica, “Eça de Queirós”, Quetzal Editores, Lisboa 2001, p. 16

(3) Jaime Cortesão, “16 de Maio de 1828”, Conferência em Aveiro em 1956, Separata da Revista “Aveiro e o seu Distrito”, 1976-1977.

(4) Maria Filomena Mónica, “Eça de Queirós”, Quetzal Editores, Lisboa 2001, p. 362

(5) Citado por Eduardo Cerqueira, "Comemorações aveirenses do III centenário do falecimento de Camões (1880)", Separata da Revista "Aveiro e o seu distrito", 1975:8

25
Out24

Leituras sobre Gaza e Ucrânia por Rosa Pinho

José da Praia

A revista eletrónica semanal “Sin Permiso” (<https://www.sinpermiso.info>) fundada em 2005, seleciona, com recurso a trabalho voluntário, artigos considerados relevantes na perspetiva da orientação da revista e de colaboradores dos dois lados do Atlântico, para que sejam divulgados. São então traduzidos para espanhol e publicados na revista com indicação das respetivas fontes originais.

Sou leitora assídua.

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1. Um artigo interessante desta semana, reproduzido do jornal inglês “The Guardian”, é da autoria do advogado Raji Sourani (<https://www.sinpermiso.info/textos/raji-sourani-gaza-amenaza-con-convertirse-en-la-tumba-del-derecho-internacional>), que foi defendido pela Amnistia Internacional (em 1865) como preso de consciência e recebeu os prémios Robert F. Kennedy (1991), o Right Livelihood (2013) e o da Asociación pro Derechos Humanos de España (2022). Fundador em 1995 do Centro Palestino de Direitos Humanos, ficou com a sua casa em Gaza destruída por um ataque aéreo israelita nas primeiras semanas da guerra. Preocupa-o que sentenças de tribunais internacionais não tenham efeitos práticos mesmo tratando-se de genocídio. Outra vez: de genocídio. Considera que Gaza está ameaçada de ser a sepultura do Direito Internacional.

2. Esta semana apreciei especialmente uma entrevista a um órgão de comunicação italiano do antropólogo, historiador e ensaísta francês Emmanuel Todd. A entrevista (<https://www.sinpermiso.info/textos/no-soy-prorruso-pero-si-ucrania-pierde-la-guerra-sera-europa-la-que-gane-entrevista-a-emmanuel-todd>) intitulada (em tradução livre) Não sou pró-russo mas se a Ucrânia perde a guerra será a Europa que a ganha”, aborda vários temas incluindo a “ideologia transgénero”.

Acerca da guerra na Ucrânia comenta: “Se Rússia é derrotada na Ucrânia, a subjugação europeia aos norte-americanos prolongar-se-á por um século. Se, como creio, os Estados Unidos dão derrotados, a NATO desintegrar-se-á e a Europa ficará libre.”

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  1. Um outro artigo apreciável é da autoria de Micol Meghnagi (<https://www.sinpermiso.info/textos/nace-la-red-de-judios-europeos-por-palestina>), assessora parlamentar na Câmara de Deputados italiana. É sobre a recém-criada Rede de Judeus Europeus pela Palestina – que segue o exemplo da norte-americana Jewish Voice for Peace (Voz Judia pela Paz) – apresentada no Parlamento Europeu em Bruxelas. Reúne em rede diversas associações hebraicas defensoras da Palestina, como a alemã Bund Judío, o italiano Laboratorio Judío Antirracista (LEA) – ativo a nível popular desde 2020 que advoga o fim do apartheid na Palestina – e a francesa Tsedek (“Justiça” em hebreu).

Estou muito grata à revista “Sin Permiso”. Obrigada.

 

05
Out24

Mitologias

José da Praia

Em entrevista ao jornal “Público”, publicada em 20 de setembro (aqui), o historiador Yuval Noah Harari, autor dos livros "21 Lições para o Século XXI", "Sapiens: História Breve da Humanidade", entre outros, e agora "Nexus – História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial", confirma o que é sabido: os humanos criaram “ficções”, mitologias, fantasias e delas nasceram religiões.

Os conhecimentos científicos vão evoluindo e vão explicando muito do que, antes, por ser desconhecido, era ficcionado. 

As mitologias religiosas tiveram e têm efeitos positivos. Por exemplo construíram-se magníficas catedrais e mesquitas em honra dos respetivos mitos. Mas também houve e ainda há efeitos negativos e até criminosos. E houve e ainda há presentemente mitologias religiosas que dominaram e dominam ou influenciam fortemente alguns países. E guerras entre países que são guerras entre mitologias e até entre variantes de mitologias. E guerras por interesses disfarçadas em guerras entre mitologias. E guerras que as mitologias abençoam.

As mitologias são, em geral, metidas nas cabeças das pessoas em criança e depois, insistentemente, repetidamente marteladas ao logo dos tempos e delas é difícil as pessoas livrarem-se.

Que fazer?

Será preciso divulgar insistentemente os conhecimentos científicos?

Será preciso “desaprender o que foi aprendido” e esclarecer as pessoas desde cedo que as mitologias são o que são: mitologias?

18
Jul24

A guerra na Ucrânia

José da Praia

Para se conhecer a situação na Ucrânia antes da invasão russa de fevereiro de 2022, merece a pena ler ou reler o artigo do jornalista Ricardo Cabral Fernandes publicado no ano 2020, em 21/06/2020, no jornal “Público” (ler aqui).

***

O livro a “A Guerra a Leste” da autoria do jornalista freelancer Bruno Amaral de Carvalho, com prefácio do Major-general Carlos Branco, dá um contributo importante para conhecermos os precedentes e a evolução da guerra na Ucrânia.

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Como repórter de guerra, Bruno de Carvalho esteve no total oito meses nas regiões de Donetsk, Lugansk e Zaporozhye. Enviou reportagens, para canais como a CNN Portugal e o canal público basco Euskal Telebista (EiTB), e para vários jornais designadamente o “Público” (inicialmente), para o jornal galego “Diário Nòs e o basco “Gara”.

Relata-nos acontecimentos dramáticos que presenciou ou que lhe foram narrados em locais atingidos pela guerra. É um testemunho a ter em consideração.

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