"O Partido Trabalhista britânico está abrindo caminho ao fascismo" por Jeremy Corbyn

Fonte: “Sin Permiso”
Tradução de Rosa Pinho
Jeremy Corbyn foi líder do Partido Trabalhista britânico entre 2015 e 2019. É presentemente deputado na Câmara dos Comuns pelo distrito londrino de Islington Norte e membro do grupo de parlamentares da Aliança Independente e um dos principais promotores do novo partido da esquerda britânica. NDT.
Visitei Calais, em França, em múltiplas ocasiões. E em cada uma dessas vezes aprendi algo novo sobre o significado da resiliência humana. Depois de fugirem dos horrores da guerra, dos desastres ambientais e da indigência, os refugiados de Calais passaram um inferno em busca de um lugar seguro. Ao chegarem a Calais prosseguem a sua busca. Os meninos pedem água que está contaminada por fezes. As ratazanas passam nas esburacadas tendas de campanha da família. As mães choram implorando um futuro para os filhos. As autoridades francesas procedem diariamente a desalojamentos; confiscam ou destroem as tendas de campanha, as mantas, os documentos de identidade, os telemóveis, a roupa e os medicamentos.
Os que chegam às costas britânicas, atravessando a Mancha, não são «refugiados do mar». São seres humanos que pedem legalmente asilo. Tal como escreve Warsan Shire no seu poema Home, “ninguém põe seus filhos num barco a menos que a água seja mais segura que a terra”. Imaginemos o que é viver nas condições que descrevi. Imaginemos então o que é arriscar a vida para atravessar o Canal da Mancha. E imaginemos o que é terminar numa pensão, olhar pela janela e ver uma multidão de pessoas a gritar “vai para a tua terra”.
No último mês fomos testemunha de uma série de protestos frente aos hotéis que estão a ser utilizados para alojar os solicitantes de asilo. Entre os manifestantes havia cartazes que diziam “deportações em massa já”, uma reclamação a que agora se juntou Nigel Farage, do partido Reform UK. Muitos de nós observámos nos Estados Unidos as horríveis imagens onde se vê como os polícias arrastam as pessoas pelas ruas. Francamente é aterrador pensar que essa crueldade possa chegar em breve ao Reino Unido.
Como chegámos a esta situação? Respondo: porque um governo trabalhista passou o último ano incitando ao ódio, à divisão e ao medo. Foi absolutamente repugnante ver o Partido Trabalhista publicar vídeos de migrantes detidos e deportados, numa campanha de propaganda de que Donald Trump se sentiria orgulhoso.
Foi igualmente repugnante ver agentes da polícia terem de escoltar um voluntário dador de ajuda a imigrantes em Deliveroo, rodeado por manifestantes contrários ao asilo, somente umas semanas depois de o Governo ter ameaçado a fornecedores «ilegais» de comida para a sua possível deportação. Em vez de demonizar os humanitários doadores de comida, que podem ser ou não ser solicitantes de asilo, por que não outorgar aos requerentes de asilo o direito a trabalhar para que possam manter-se e contribuírem para a sociedade? As análises mostram que assim se poderia alcançar 1.300 milhões de libras por ano e acrescentar 1.600 milhões de libras [cerca de 1.840 milhões de euros] ao PIB anual do Reino Unido.
Culpar pessoas vulneráveis tem sido sempre uma estratégia deliberada do governo para distrair a atenção dos seus próprios fracassos internos. Hoje podem ser os imigrantes que pedem de asilo. Amanhã poderão ser as pessoas com incapacidades. Depois de amanhã, as pessoas trans. Seja qual for a minoria, estamos sendo testemunhas da demonização de pessoas vulneráveis, com grave prejuízo para todos nós.
Os grandes causadores das divisões sociais querem que acreditemos que os problemas da nossa sociedade são causados pelas minorias. Mas não é assim. A causa é um sistema económico manipulado que protege os interesses dos super-ricos. Por isso vivem na pobreza 4,5 milhões de crianças. Por isso continuam a aumentar as faturas da água. Por isso pagam os inquilinos de habitações do setor privado mais de metade do seu salário líquido para terem um teto onde se abrigarem.
Os estrategas trabalhistas nos dirão que não têm outro remédio senão apoiar-se no sentimento anti-imigrante para travar o crescimento do partido Reform UK. Mas isso funciona? O Partido trabalhista podia ter defendido um sistema de imigração humano que tratasse os refugiados com dignidade e respeito. Mas pelo contrário têm avivado as chamas do racismo e promovido a extrema-direita em todo o país. Quando demonizas os imigrantes, a extrema-direita escuta-te. Quando se publicam vídeos da detenção e deportação de imigrantes, a extrema-direita vê-os. Quando se fala numa «ilha de estrangeiros», a extrema-direita mobiliza-se.
Mas não são sinais de um partido que adota contrariado uma estratégia eleitoral. São sinais de um partido que adere ativamente ao crescimento do populismo da extrema-direita, sem que importe o custo eleitoral. São sinais de um país que desliza pela rampa do fascismo. Esta palavra não deve utilizar-se com ligeireza. Muitos atos são suficientemente aterradores por si mesmos sem necessidade de etiquetá-los assim. Mas cuidado, o fascismo não chega da noite para o dia com uniforme. Ele chega com políticos vestidos com roupa normal, lei a lei.
De facto a demonização das minorias faz parte de um ataque mais amplo e em grande escala contra os direitos humanos. Quando o Governo proibiu, por exemplo, a ONG Palestine Action, não atacou, aqui e agora, apenas o direito de oposição ao genocídio. Abriu um perigoso precedente, incentivando a que um qualquer futuro novo governo considere que também pode arrebatar o direito a protestar num abrir e fechar de olhos. O Partido Trabalhista não está apenas a pactuar com o partido Reform UK. Está estendendo-lhe a passadeira vermelha aprovando leis perigosas que serão aproveitadas por aqueles que buscam destruir os nossos direitos.
Encontramo-nos numa encruzilhada crucial. Precisamos de uma alternativa. Por isso lançámos o yourparty.uk, e por isso já se inscreveram mais de 700.000 pessoas. Vamos fazer as coisas de outra maneira. Não vamos converter os refugiados em bode expiatório dos males da sociedade. Pelo contrário, concentraremos a nossa atenção na causa real: uma sociedade grotescamente desigual que concentra a riqueza nas mãos de uns poucos.
Não defenderemos apenas os direitos humanos dos refugiados. Defenderemos os direitos humanos de todos. Incluindo as pessoas com incapacidades e o seu direito a viverem com dignidade. Incluindo as crianças em situação de pobreza a quem se nega o direito à alimentação e à roupa. Incluindo as pessoas trans, que enfrentam uma terrível descriminação, o ódio e abusos somente por viverem as suas vidas; as pessoas trans são seres humanos que merecem viver com segurança, dignidade e liberdade. Devemos estar unidos contra a opressão e os preconceitos em todas as suas formas, e é isso que faremos.
Olhemos em nosso redor e encontraremos provas de que é possível um mundo mais amável. Pelo que vemos na maioria dos nossos meios de comunicação, poderia pensar-se que existe um consenso segundo o qual os refugiados não são bem-vindos. Nada está mais longe da realidade. «Creio que devemos cuidar das pessoas que passam por apuros ou que necessitam de ajuda». Isso é o que declarou uma jovem em resposta aos manifestantes da sua comunidade em Epping. Falo com pessoas como ela todos os dias, pessoas comuns e correntes que apoiam, se fazem amigos e estendem a mão como seres humanos aos solicitantes de asilo.
O primeiro-ministro fala de uma ilha de estrangeiros. Ignora a bondade dos desconhecidos. E é isso que me oferece a esperança de que, juntos, possamos construir um mundo mais amável para todos.
Jeremy Corbyn
Fonte: Tribune, “Labour Is Paving the Path to Fascism” by Jeremy Corbyn, 01.09.2025, <https://tribunemag.co.uk/2025/09/labour-is-paving-the-path-to-fascism>
Tradução para español: Lucas Antón
“Sin Permiso”, 06/09/2025
<https://www.sinpermiso.info/textos/el-partido-laborista-le-esta-abriendo-camino-al-fascismo>


















